Também acho que depende muito do que entendemos por “influência africana”. No caso da música, por exemplo, para mim é impossível falar da cultura portuguesa contemporânea sem pensar nos géneros e artistas ligados às comunidades cabo-verdianas, angolanas, guineenses e moçambicanas, sobretudo em Lisboa. Há coisas que já fazem parte do ambiente musical da cidade há décadas e que deixaram de parecer uma influência “de fora”. Na literatura acontece algo semelhante, embora talvez seja menos visível para quem não procura especificamente autores africanos ou da diáspora. Gosto particularmente quando as obras não ficam presas apenas ao tema da identidade, mas falam de família, relações, trabalho, cidade, memória, ou seja, assuntos completamente normais, vistos a partir de outras experiências. Também vale a pena acompanhar projetos culturais independentes que dão espaço a essas vozes, como
https://afrolispt.com/, porque acabam por trazer histórias e discussões que nem sempre aparecem nos meios culturais mais conhecidos. E acho que isso é importante: não olhar para a cultura africana apenas como uma “influência” sobre Portugal, mas perceber que as pessoas dessas comunidades também estão a criar cultura portuguesa hoje, aqui e agora.